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segunda-feira, 4 de julho de 2011

O FIM DOS PROFESSORES


O ano é 2.209 D.C. – ou seja, daqui a duzentos anos – e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
– Vovô, por que o mundo está acabando?

A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:

– Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.

– Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?

O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.

– Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?

– Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.

– E como foi que eles desapareceram, vovô?

– Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa.

Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer “eu estou pagando e você tem que me ensinar”, ou “para que estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você” ou ainda “meu pai me dá mais de mesada do que você ganha”. Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”. Os professores eram vítimas da violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo.

Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. “Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular”, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos
passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério.

Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas – enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade.

Ah, mas teve um fator chave nessa história toda. Teve uma época longa chamada ditadura, quando os milicos colocaram os professores na alça de mira e quase acabaram com eles, que foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal da república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de “educação libertadora” que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos… Foi o tiro de misericórdia nos professores. Não sei o que foi pior – os milicos ou os tais dos subversivos.
– Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?

– Era, meu filho, era, não é.. Também não existem mais…”

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Depoimento retirado do Blog do Moacir Pereira

Autor: Eliane Scremin Comment:

Fui hoje a Igreja rezar e participar da missa. A Igreja lotada, sobrou-me o último banco e lá sentei. Depois do evangelho o padre comentou sobre a justiça dos homens e a falta de justiça da sociedade, questionou também a falta de ética, do respeito, do compromisso e também da banalização dos movimentos sociais. Foram palavras do padre, "se a massa vai pras ruas lutar por direitos que lhes são negados não podem ser chamados de baderneiros". O padre foi mais além, disse também que a sociedade hoje tem muita informação e da informação pode ter conhecimento de causa. Pode esclarecer-se melhor para poder ter mais consciência dos problemas que norteiam a sociedade. Tendo maior consciência, manifesta-se a solidariedade entre os homens.

Nesse contexto, o padre citou a greve dos professores, um movimento legítimo e que a sociedade hoje esquece o que é direito, que não só os professores deveriam lutar por essa lei mas toda a sociedade.

Diante disso, aluno não precisaria ser usado e ficar sem aula e os professores não precisariam fazer greve. A sociedade tomaria o lugar dos professores na luta e faria frente ao governo no cumprimento da lei.

Reflitam senhores pais, disse o padre!

Moacir, as palavras do padre me sensibilizaram, me mostra que nem tudo está perdido. Antes de sair da Igreja, fui cumprimentar o padre por suas sábias palavras e que valeu a sua mensagem, ele bateu no meu ombro e disse-me: "fiquei tão triste ontem ao ver na televisão aqueles professores passando frio, tendo que ficar naquelas barracas lá em Florianópolis, implorando por piedade pro governo, onde estamos, são professores". A indignação do padre e acredito de muitos é tamanha.

Moacir, acredito que essa greve serviu também para isso. Mas espero também que isso não pare por aqui!

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Fernanda Conceição da Silva Cherem

“O que me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”. (Martin Luther King)